avó

ela lembrava-se bem daquela avó, que não sabia ler nem escrever o próprio nome, com traços do rosto da mãe ainda que mais rugosos e com cabelos brancos, muito brancos, que amarrava num único carrapito. quis a neta, achando-se sábia com o ensino primário, ensinar-lhe as vogais, os ditongos e outros encontros vocálicos até conseguir que a avó escrevesse “ma, ri, a”. mas a avó tinha flores que gritavam sede e mimo e não podiam esperar.

ela lembrava-se de querer ensinar o que tinha para aprender e, por isso, não se deixou vencer pela falta de tempo da avó. e ditava “a, e, i, o, u”, atrás dela, pelo jardim afora. hoje sabe que a sapiência e paciência da avó a cuidar das flores se confunde com a sapiência e paciência com que cuidava da casa, filha, neta, vida. sabe que, afinal, tinha uma avó sábia que não precisava de aprender o “a, b, c” e apenas lhe fazia a vontade, dando-lhe tempo e espaço para ensinar o que tinha de aprender.

ontem a avó completaria 99 anos. e haveria (haverá) de estar a rir-se da neta que tentou ensinar-lhe os fonemas que carregam o sentido “Maria”. e haveria (haverá) de ter orgulho da neta que ainda tenta ensinar o que está a aprender.

a neta, essa, continuará a reconhecer nas próprias mãos a aspereza e grossura dos dedos das mãos da avó e, por isso, não se esquecerá de as voltar para o céu e afaga-las junto ao coração.

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