sinal aberto ao regresso

“O meu candeeiro é o cigarro.
O fumo o meu horizonte.
Não estou só. Tenho a companhia do meu coração. 
Ele e eu. Somos um. 
Amparamo-nos. Voltámo-nos um para o outro.
Regressámos um ao outro sempre que há poeira no ar. 
Tenho medo que o coração
Num destes dias não resista. 
Não volte a mim.
Nem ao ar. Nem à rua. Nem à poeira ou ao vazio.
Existe um medo entre mim e o meu coração.
Um medo invisível.
Um medo que sem existir o meu coração o abraça.
Eu o abraço.
E aqui não há regresso. Há um desperdício. 
A que chamam dor, remorso, fracasso. 
Preciso de cometer um crime. 
Um crime que deixe o meu coração em paz. 
Que me deixe viver o coração, para que eu também possa viver.
E assim regressar a mim, 
ao meu coração e ele a este corpo vazio.
Apenas cheio de coração. 
Mãos ao alto. Alto para medos, para dores, 
para remorsos, para fracassos.
Sinal aberto ao regresso.
Ao regresso do meu coração em mim, e eu no meu coração.
E assim ambos possamos regressar juntos à vida e ao caos
a que ela nos faz rodopiar, e voltar e regressar,
sempre, e para sempre.”

Joana Soares, “Sinal aberto ao regresso”

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