no festival luso zen

ninguém se deixou cair sobre a esteira de yoga sem antes abrir os olhos e espreitar para trás, para o sítio onde se iria cair. a professora riu-se de nós e do medo que sempre se apodera dos alunos naquele exercício. “olhem bem para trás, é só a vossa esteira, não é preciso ter medo.” e repetiu-se o exercício, desta vez de olhos fechados, todos e cada um muito seguros de si.

foi assim, com esta aula libertadora, que se iniciou o primeiro de três dias do Festival Luso Zen, realizado em julho, na Mealhada. foram dias de solidão e de convívio, de silêncio e de ruído, de complexidades e simplicidades… dias de muita energia, que deixei fluir como as águas de um rio, umas vezes beijando margens e outras criando atrito nas pedras do leito.

o corpo era sempre o nosso ponto de partida, espelho das nossas memórias, ali pronto a ser acionado para detonar curto-circuitos produzidos. “o corpo mostra-nos o que está a acontecer”, disseram-nos. por isso os ressonos de quem adormecia ou as lamúrias de quem não conseguia meditar eram bem acolhidos. “faz parte do processo”. aprendi que a aventura para uma maioria começava ali, naquela lugar, naquele momento em que não se consegue, na perceção de estar a ser-se domado, no entendimento de que podemos nós domar a situação. afinal, “só temos dois braços e duas pernas ainda que, às vezes, mais pareçamos um polvo”. “fazer o que se sabe fazer, abrindo espaço para o que não se sabe” era, pois, a palavra de ordem.

tantos duelos, tantas práticas meditativas, tantos nomes para elas… tudo resumido a corpos pesados caídos sobre o chão, espíritos soltos vagueando entre tambores, aves de rapina e gritos tribais, corações a expandir… e papéis. papéis que se tiravam de um cesto confirmando-nos o que já sabíamos mas não assumíamos. e gente que nos olha nos olhos e nos lê a alma. cristais a gritarem por nós e caçadores de sonhos vindo-nos buscar. aquela árvore, caída na mata do Buçaco, de grande porte mas raízes pouco profundas, a gritar: “agarra-te à vida.” as derradeiras mensagens. a certeza de estar a ser vigiada. a gratidão por todas as ferramentas estarem a ser-me dadas.

Luso Zen

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