sintra I: no almáa

seria mais fácil se tivesse de escrever para rádio porque este lugar é feito de sons… o som do espanta-espíritos à entrada do hostel, que me deu as boas-vindas à chegada, momentaneamente o único sinal de que por aqui existe, quebrando o silêncio, penetrando-me fundo e quase me deixando em transe. não podia ter sido mais bem recebida, do que por todo este silêncio entrecortado por alguém que chega, pressagiando-se o que aqui se inicia: uma viagem de sentidos, sem lugar a pressas.

e o que dizer do som das árvores e da vegetação que, a todo o tempo, dançam com o vento? e o som do violino, lá longe, estilo medieval, que ao final do dia me acompanha nas refeições ao pôr do sol, aquecendo e fazendo crescer a alma? mas, em rádio, como fazer escutar o silêncio, se é o silêncio que mais se faz ouvir?… ele está cá sempre: mesmo ao pequeno-almoço, com o entra e sai de gente a falar diferentes línguas; mesmo à noite, quando na sala de estar se ouve o burburinho de quem por aqui permanece a ler ou escrever; mesmo junto ao Pavlov, o cão da casa que, a descansar dos grandes passeios do dia na vila, suspira profundamente, soltando estórias daquelas e outras gentes.

talvez, afinal, seja mais fácil escrever para televisão, porque todos estes sons se apresentam profundamente imagéticos e todas estas imagens são tão cheias de cores… desde o verde intenso dos jardins que rodeiam a quinta do hostel aos tons quentes dos seus interiores, tão despretensiosos e equilibrados (talvez nunca me tenha sentido tão livre entre paredes). mas, assim sendo, como transmitir o toque, esse toque das paredes que não sufocam? e o cheiro do ar puro que nos entra nas narinas logo pela manhã, quando abrimos a janela do quarto? e, depois, ainda há o toque desse ar quando se toma banho também de janela aberta, o toque de todo aquele verde imenso, ainda que à distância.

não há, na verdade, signos que cheguem. como explicar uma noite de lua cheia em plena serra de Sintra? como explicar a voz dessa lua a retirar-me do repouso de uma sala de estar e a empurrar-me jardim adentro? como explicar a luz que ilumina todos os trilhos que daqui partem, desta casa? e o toque desta luz?

qualquer que seja a linguagem escolhida, ela será demasiado limitada para transmitir este despertar intenso dos sentidos. aqui, no Almáa Sintra Hostel, em pleno Monte da Lua, leio num corredor: “(…) there is something special there, and you do feel it.” (J. Donald Walters). e é verdade.

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