sintra II: para lá do lugar

diz Jacques Lacarrière que “o verdadeiro viajante é aquele que a cada novo lugar recomeça a aventura do seu nascimento”. José Tolentino Mendonça concorda, afirmando também que, de facto, “a viagem não tem nada para dar-nos, além da morte das nossas ilusões e de um novo nascimento” e que “o verdadeiro viajante é aquele que descobre a necessidade de bússolas simbólicas para a sua travessia. Bússolas, em vez de derivas”. Almáa, Sintra e tudo o que rodeou esta viagem, e nela coube, foi isso mesmo para mim, para quem nas férias prefere interrogações a evasões: um poiso, um retiro, um renascimento, uma bússola.

parti rumo a sul, sem quilómetros nem etapas traçadas, sem setas amarelas a guiar-me, sem me isolar, sem fugir. era altura de aceitar que aquele fedelho do meu sobrinho armado ao pingarelho tinha razão (dizia, no ano passado, a caminho de Santiago, que meditar ali era “para meninos”, desafiando-me a consegui-lo antes no quotidiano). era tempo de buscar equilíbrio e confiar mais em mim e no meu sentido de orientação.

parti sem planos nem percursos previamente estudados, abandonando ideias pré-concebidas, ora deixando que o destino tomasse conta de mim, ora me guiando pelo instinto. não consultei os serviços de meteorologia, nem precisei de GPS, improvisei passeios ao sabor do tempo e das direções que o mapa pousado sobre as mãos ia inspirando. senti-me livre, liberta, desperta, despojada, deixando tudo vir e ir, fluindo tudo…

parar em Mafra para visitar o convento que Saramago evoca num Memorial. embrenhar-me na serra de Sintra e deixar-me tocar por toda aquela vegetação, adivinhando-lhe os mistérios. travar amizade com animais – Pavlov, cão tão sábio! fazer do Almáa Sintra Hostel um retiro e lugar de reencontro; e do Wine & Surf Hostel Óbidos um sereno regresso. descobrir praias que não vêm nos mapas. fazer-me criança e acompanhar o voo de pássaros, acenando-lhes da janela do automóvel em andamento. voltar a abraçar uma amiga que o destino levou para longe. demorar-me na conversa com estranhos, escutando tudo o que dizem nas entrelinhas. comprar conchas e flores só para ver sorrisos. depositar memórias nos objetos que escolho trazer para casa.

de Mafra à Praia Grande, passando pelas Maçãs ou Peniche… tudo teve ressonância em mim, vivido assim, na simplicidade da contemplação, na vivência do momento presente a todo o momento. tudo me devolveu ao mundo, aos outros… ao meu propósito.

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