estrada fora

uns chamar-lhe-ão sorte ou acaso. eu opto por chamar-lhes bênçãos. poderia até discutir-se se fui eu que ali me trouxe ou se para ali me empurraram. pouco importa senão o que ficou: uma imensidão de sei lá o quê, que me invadiu e me fez olhar para a frente, para o lugar e momento em que me encontrava, liberta de espaços e tempos que só existiam no pensamento, liberta de “se isto ou aquilo”, liberta de ilusões. presente. simplesmente entregue ao presente.

naquele dia, naquela viagem, enquanto conduzias, tranquilo, seguro, mãos postas no volante, olhar na estrada, eu quase me evadia num turbilhão de pensamentos. eu, num corpo quieto, pousado no banco do carro, olhava para mim adentro, para um lugar feito de batalhas e ruído. o carro desviara-se da estrada principal, não seguíamos o roteiro recomendado no mapa e eu, silenciosa para ti, ultra-barulhenta para mim, embirrava com o acaso. “e se, lá atrás, tivéssemos virado à direita?”, perguntava-me. “já estaríamos a chegar ao destino”, respondia. “e se, lá à frente, nos desviássemos para a esquerda?”, voltava a questionar-me. “podíamos ver os famosos moinhos”, asseverava. “e se este percurso fosse feito a pé ou de bicicleta?”, interpelava-me. “seria seguramente extraordinário”, corroborava. e neste vaivém de pensamentos indomáveis quase deixava instalar-se a frustração, a irritação, a decepção, o medo.

poderia discutir-se se fui eu que decidi serenar-me ou se algo se apossou de mim e silenciou-me a mente. calaram-se as vozes. encerrou-se a batalha. inspirei, expirei, olhei e vi que estava a perder o momento, a perder o amor daquele que estava ali mesmo ao meu lado a guiar-nos, a perder a paisagem feita de tudo o que não vem assinalado no mapa, a perder o vento que bate forte na cara quando se vai de janela aberta num carro. e então percebi que estava tudo bem, estava tudo certo e a felicidade, plenitude, realização não estavam ali atrás, nem ali à frente. não estavam numa mochila às costas ou num trilho feito de bicicleta. não estavam noutro destino qualquer almejado. estavam ali mesmo, no meu centro, a brotar de mim.

quase me evadia nesta esquizofrenia de que todos sofremos, se não nos vigiarmos a todo o momento. mas naquele relâmpago de luz, em que te olhei e nos vi felizes, em que pus a cabeça de fora do carro e deixei o vento bater-me na cara e levar-me os pensamentos… um moinho, aquele moinho, tosco, só, fora do roteiro, não assinalado no mapa, longe dos focos dos turistas, tão apenas à minha espera, a mostrar-se, a chamar-me, a  lembrar-me da magia de que todos somos feitos. uns chamar-lhe-ão sorte ou acaso. eu opto por chamar-lhes bênçãos.

 

2 Comments

  1. lindo texto, lindo mesmo. arrisco-me a dizer que a cada dia escreves mais “bonito”. não pela forma mas pelo conteúdo. obrigada por me recordares que o que importa não estava no ontem, não estará no amanhã. mas, sim, que está aqui e agora. ***

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