bodas de ouro

já não há histórias de amor como esta. ela, Eduarda, ele, Zé. tinham feito uma peregrinação a Fátima e calhou cruzarem-se na excursão que se organizou para devolver os peregrinos a casa. “foi um milagre, amor à primeira vista”, diz ele. ela já namorava, mas isso não o demoveu e desembainhou a espada. começou a aparecer-lhe junto às terras onde trabalhava. naqueles tempos havia dias e horas para se namorar e ele, conhecendo os rituais, acelerava na mota para antecipar-se ao namorado, fazendo-lhe frente. até que teve um acidente e foi obrigado a desaparecer-lhe durante duas semanas. quis deus que ela se ressentisse da ausência e acabou com o namorado, esperando que o Zé melhorasse e voltasse a visitá-la. e ele visitou. e ela foi pedida em namoro. e tudo o que sou começou a desenhar-se ali.

foi preciso meio ano para ele ganhar coragem e pedir-lhe autorização para abandonar o “você” e passar a tratá-la por “tu”. foi preciso outro meio ano para conseguir arrancar-lhe o primeiro beijo… na cara… e que os levou aos dois a fugir de si mesmos, ele agarrado ao toque dos lábios na cara dela – “foi um dos dias mais felizes da minha vida”, diz ele – e ela agarrada à vergonha do que acabara de acontecer. o namoro decorria junto ao portão da casa dela, com os ponteiros do relógio sob controlo não fosse o pai dela aparecer e com a mãe a pressionar – “anda para dentro”. “ela já vai”, dizia ele.

dois anos e meio assim até se casarem. a amar e quase não se terem. a desejar e quase não se tocarem. a sonhar.

já não há histórias de amor como esta, feita de milagres, de trocas de olhar, de ternura, de respeito, de perseverança, de espera. ontem completaram 50 anos de casados, casa própria erguida pelos próprios braços, artes aprendidas com os pais, três filhas, quatro netos e tanto amor e lições de vida que não mais acabam.

como fazer caber num coração, numa vida, tamanho amor, senão desta forma… gerando vida, eternizando-a, testemunhando-a. não cabe em mim este sentimento de ter assistido ontem a um amor assim. podiam até caber as estórias num filme ou num livro, mas bastaria não se terem cruzado na excursão, bastaria o acidente de mota ter sido mais violento, bastaria ele não ter sido teimoso, bastaria ela não ter esperado por ele… e tudo não existiria neste lugar, desta forma.

não cabe em mim este mistério e, talvez por isso, sejam precisas vidas, muitas vidas, para o compreendermos. até lá, à compreensão, fica o orgulho imenso, a gratidão imensa, por ter escolhido estes pais que me mostram o que é o amor, o que é um casamento, o que é ser-se eterno. talvez por isso os tenha escolhido. e com uns pais assim, que celebram as bodas de ouro oferecendo laranjas às filhas – pois foram laranjas que lhes mataram a sede na primeira noite juntos, à falta de água – e oferecendo argolas de fio dourado feitas pelas próprias mãos sem esquecer a neta que o universo ainda há de encomendar… fica também a certeza que haverá já uma alminha a escolhê-los como avós.

bodas de ouro

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