páscoa

há muito muito tempo alguém ousou exprimir o seu EU mais elevado, centelha divina que habita em nós. há muito muito tempo alguém aceitou o seu Propósito mais elevado, confiou e entregou-se, tentando humanizar-nos um pouco mais e, por isso, morreu crucificado.

há muito muito tempo uma mulher ousou render-se a essa Verdade que sentiu como sua, bastando-lhe uma palavra para se sentir salva. outra ainda, contra todos os sonhos e todas as dores, ousou ter fé até na morte, até depois da morte, até ouvir novamente o nome “Mãe”, respondendo sempre e somente “Eis-me”.

teria sido mais fácil terem continuado na sua vidinha, uma a gozar os mistérios da carne, outra a gozar o seu marido-carpinteiro-descomplicado. teria sido mais fácil ele ter-se mantido protegido no ventre da mãe.

mas diz que não foi assim. e não foi assim, à maneira de cada um, para um Jesus, um Buda ou outro filho-profeta-homem que viveu e morreu por Deus-Alá-Shiva-Universo-nós.

e poderia voltar tudo a repetir-se: alguém vir acordar o nosso Eu mais profundo, alguém a procurar esse EU e a render-se e uma Mãe, força de natureza inigualável, a mostrar como podem vir mil facas e tesouras a cortar cordões umbilicais que nada separa e suspende sangue do mesmo sangue, carne da mesma carne… repetir-se-ia o julgamento do homem por sacerdotes e outros mestres espirituais, povo e donos dos nossos pensamentos, porque não é digna, porque não é digno, porque não vai à missa, não jejua, não comunga, não confessa, não medita, não é vegetariano, não faz Yoga com “Y” ou faz o faz numa escola e não noutra. tal como aquele, filho de carpinteiro, rebelde, quiçá carne com carne de Madalena. prostituta a apedrejar, mãe com coração de espinhos, homem a crucificar. novos cenários, novas vestes, novos nomes mas tudo poderia repetir-se que o mundo bem precisava e tudo voltaria a acontecer do mesmo modo.

por tudo isto – tão pouca evolução, tão pouco entendimento – eu sinto muito, envergonho-me e peço perdão, abro o coração para amar e sou grata, porque depois de batalhas travadas entre anjos e demónios sai que basta uma só palavra, basta a fé, e sou resgatada e salva. porque encontro o que procuro, feita Madalena. e porque, feita Maria, digo “Eis-me”, sabendo que tudo vai e vem, nada é estático e definitvo, carrego cruzes e logo ressuscito, ao terceiro dia, ao terceiro mês, ao terceiro ano, à terceira vida ou a múltiplos de três.

esta é a minha Páscoa. sentir muito, perdoar, amar e ser grata.

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