alexandra: a autora do “nheko”

vive desde 1995 com o músico Nuno Rafael. juntos tiveram a primeira filha, a Rita, há 17 anos. com uma diferença de apenas dois anos, surgiram as gémeas Alice e Eva. há quatro, nasceu o Raul, o boneco da família e cujo diminutivo inspirou o nome do projeto editorial que criou em www.nheko.pt. Alexandra passou então a dedicar-se a este site sobre vida em família a tempo inteiro, que foi o mesmo que assumir o seu papel principal: ser mãe. também aqui encontramos uma loja de jogos e brinquedos, coisas bonitas, algumas exclusivas, cheias de propósito. com o Natal já à porta, fomos conhecer a autora deste sítio inspirador.

a essência dos dias: vive com o “namorado de sempre” há mais de 20 anos e juntos têm quatro filhos. ser família e ser mãe é um propósito assumido desde sempre ou foi acontecendo?

alexandra: foi uma descoberta, não foi uma coisa que tivesse imaginado ir ocupar-me tanto. não havia muitas crianças na família, e eu e o Nuno Rafael começámos a namorar muito cedo e fomos viver juntos aos 21 anos, portanto não se pensava muito nisso. quando tivemos a primeira filha, aí sim, percebi claramente que ia ser o meu propósito. naquele momento isso fez todo o sentido para mim e, a partir daí, tornou-se um foco.

a essência dos dias: mas antes de se dedicar à família e ao “Nheko” a tempo inteiro, passou pela área social e por um serviço educativo. houve uma ruptura ou encontram-se aqui as sementes do caminho que viria a assumir?

alexandra: claro! ainda ontem vi um filme em que, a propósito do que nos arrependemos, se dizia que somos o resultado de cada uma das experiências que fomos tendo ao longo da vida, portanto, tirando qualquer uma das partes, o resultado já não seria o mesmo. e o “Nheko” é exatamente o resultado de todo o percurso que fui tendo. tenho formação académica na área social; trabalhei em sítios muito diversificados (no Tribunal de Família e Menores, num centro social, numa escola de uma zona problemática, na Abraço, numa associação de desenvolvimento socioeducativo para apoio ao realojamento) e nisso foram 10 anos mesmo muito intensos. deixei essa área tão exigente quando as minhas filhas gémeas nasceram. nessa altura, tive a sorte de ser convidada a integrar o serviço educativo do Centro Cultural de Cascais, que estava a iniciar um projeto pioneiro que ligava a arte à educação, e aqui trabalhei 12 anos, também de uma forma muito intensa, com uma equipa multidisciplinar incrível. no decorrer disso, resolvemos ter outro filho… soube logo que estava a meter-me numa alhada. estavam reunidas as condições para parar e tentar este projeto.

a essência dos dias: mas, ainda antes do “Nheko”, em 2012, já tinha um blogue, o “Viver Todos os Dias”. aí já pensava dedicar-se inteiramente à blogosfera?

 alexandra: não, eu nem sequer passava muito tempo ao computador, seguia apenas um ou dois blogues. uma amiga é que ia mostrando umas coisas com as quais sabia que eu me ia identificar e comecei a achar piada… como sempre gostei muito de escrever e de fotografar, comecei então o “Viver Todos os Dias”, mas era um espaço de partilha pessoal, nada de sério. só em 2014 é que comecei a pensar nisso porque, por vontade política, houve muitas alterações na Câmara Municipal de Cascais, acabaram com uma série de projetos e começou-se a viver num marasmo em termos criativos. aquilo estava a fazer-me muito mal e eu tenho muita dificuldade em estar num sítio onde não esteja calma e de coração, então  aproveitei que tinham de mandar gente embora para sair e criar um projeto próprio. ainda comecei por um outro, com mais duas pessoas e que não deu certo, mas também aí fui dando corpo ao “Nheko”.

viver em família, uma ocupação a tempo inteiro

a essência dos dias: o “Nheko” é um site sobre vida em família, o que manifesta ser o cerne da sua existência, e, neste contexto, ser mãe é o papel que cumpre com mais afinco. isso está bem espelhado no texto “(des)carga mental”, que escreveu recentemente. como está face a essa carga?

 alexandra: quatro filhos representa muita coisa em que pensar e essa é a carga: estarmos constantemente a pensar no que temos de fazer, no que temos de aprovisionar, não só porque culturalmente as coisas ainda estão um bocado assim divididas (o Nuno Rafael é um pai super presente, nós partilhamos tarefas, mas por exigência profissional está muitas vezes ausente), mas também por caraterísticas minhas (tenho essa capacidade de fazer muitas coisas ao mesmo tempo). com isto, claro que essa carga cai-me muito em cima. mas tenho perfeita consciência de que sou uma privilegiada a variadíssimos níveis e sou muito grata pela vida que tenho: com 28 anos já tinha três filhas e sempre estive bem com o que isso me trazia, talvez porque tivemos uma vida muito intensa e, quando chegou a altura de ter filhos, não pensámos “agora vamos deixar de” mas “agora vamos viver coisas diferentes”; este filho é muito fácil, somos cinco a tomar conta de um, é como se estivéssemos a brincar aos bonecos; tenho imenso tempo para os meus filhos; vivo num sítio extraordinário, não tenho stresse absolutamente nenhum na vida…

a essência dos dias: mas como é o dia a dia de uma pessoa como a Alexandra, mãe a tempo inteiro e autora do “Nheko”?

alexandra: de manhã, como todos os pais, levamos os filhos à escola, mas depois tenho o privilégio enorme de poder voltar para casa e de trabalhar em casa (e eu adoro trabalhar em casa!). e nisto o que é absolutamente incrível e fantástico é poder receber telefonemas das minhas filhas durante o dia, porque não tiveram aulas ou estão sozinhas à hora do almoço, e poder ir ter com elas, sobretudo na idade em que estão – na adolescência é normal os pais sentirem um afastamento e, mesmo sendo uma fase intensa e conflituosa, eu não sinto isso porque tenho uma grande disponibilidade. e preocupo-me muito em dar o exemplo – grande parte da minha “carga mental” é pensar como é que eu ajudo diariamente os meus filhos a serem pessoas melhores.

a essência dos dias: noutro texto, “marcas que ficam para sempre”, a propósito de uma viagem em família aos Açores e da questão “o que fica de tudo isto”, escreveu: “dar significado à vida é qualquer coisa que se aprende desde cedo”. é essa a linha mestre do seu projeto e a que se pode resumir uma educação consciente?

alexandra: sim! e isso foi algo que me ficou do trabalho no serviço educativo do Centro Cultural – estávamos sempre conscientemente a dar significado a qualquer experiência (uma visita guiada, um espetáculo ou uma exposição), queríamos que as pessoas saíssem dali alteradas (podes ir ver um filme e ser como uma pastilha elástica que a seguir deitas fora ou podes tornar esse filme numa experiência significativa). com os filhos, isto é a coisa mais básica que pode haver! por exemplo: se formos a Setúbal comer uma caldeirada, podemos aproveitar para juntos descobrirmos que essa receita surge dos pescadores que antigamente aproveitavam os restos. há uma série de inputs interessantes que podemos ir passando aos miúdos com as coisas mais simples, para isso basta termos nós próprios, como pais, uma atitude curiosa em relação à vida e viver isso lado a lado (e não numa de “eu estou-te a ensinar”). se vivermos focados no que estamos a fazer e se tivermos respeito pela criança como temos pelos adultos, tudo enriquece – se vamos a um supermercado, da mesma forma que faríamos conversa com uma amiga, por que não fazê-lo com uma criança no lugar de a tratar como um apêndice e de só nos dirigirmos a ela para dizer “está quieto”. se partirmos do princípio que o respeito tem de ser o mesmo, a comunicação é logo feita de outra forma e os miúdos rapidamente deixam de fazer birras porque têm aquilo que também nós precisamos: atenção direcionada.

não são brinquedos, são tubos de ensaio

a essência dos dias: para além do site, o projeto “Nheko” materializa-se numa loja online, a “Nheko Shop”, mas não é só de brinquedos que ali se trata…

alexandra: a loja é uma montra em que se procura espelhar as nossas preocupações e parcerias que fomos estabelecendo. por exemplo, os livros fazem parte da nossa vida de uma forma muito especial, a literatura infantil é super importante na educação e um caminho para muitas aprendizagens; os jogos são uma dinâmica que implicam disponibilidade e regras e, com elas, aprende-se o respeito, o estabelecimento de prioridades, a aceitação da sorte… no brincar, há uma série de aprendizagens muito importantes que servem para a vida, por isso não gosto daquelas pessoas que, quando jogam com crianças, as deixam sempre ganhar ou fazer batota – a intenção não é má mas, se tomassem consciência do que estão a fazer, já não o faziam, porque os miúdos aprendem a resistir à frustração como uma coisa tão insignificante como um jogo. jogar e brincar é um tubo de ensaio para o amanhã, é um ensaio da vida. e a loja faz essa proposta…

a essência dos dias: uma proposta também transversal a outras iniciativas, como workshops, parcerias…

alexandra: as aprendizagens são, para mim, mesmo muito importantes e as propostas da loja, sendo online, ficam um bocado desfasadas da intenção para o meu gosto, então a “Casa Nheko” que desenvolvemos no “Organii Eco Market” é a cereja no topo do bolo. ali, sim, eu consigo mostrar como acho que estes brinquedos/jogos devem ser usados e por que é importante. outro projeto que fiz e vou repetir este ano, a convite da Câmara Municipal de Almada, é a “Brincoteca para Famílias”: trata-se de um espaço para brincar mas onde só se entra em contexto de família e, à entrada, cada família tem um saco para lá escrever o nome e deixar tudo, inclusive o telemóvel, e de lá tiram uma sebenta com um lápis (para deixarem comentários) e um conta-minutos (para verem quanto tempo aguentam sem irem aos sacos). isto parece muito simples mas é muito complicado, porque os adultos têm uma relação obsessiva com os telemóveis. isto foi claramente uma provocação, a de ridicularizar os adultos com uma verdade: não vivemos sem os telemóveis e, no entanto, acusamos os miúdos de viverem agarrados aos telemóveis, quando eles só querem ser iguais, estar no prolongamento do que somos!

a essência dos dias: e as pessoas aderem bem a estas iniciativas? entendem o que ali se promove?

alexandra: muitos dos comentários deixados naquelas sebentas eram agradecimentos pela tomada de consciência. também na “Casa Nheko” a adesão tem sido muito boa. mas ainda há muita gente com dificuldade de perceber algumas coisas, sobretudo de que as vivências, quando são partilhadas, enriquem as relações. a “Casa Nheko” também é uma provocação: nós convidamos as pessoas a lá entrarem e estarem como se comportam na casa dos amigos, e isso – questionarmo-nos que respeito é que nós temos quando entramos na casa dos outros – é bastante provocatório. encontrei muitas atitudes bipolares, desde a superproteção da criança, que não podia mexer em nada e em que o adulto a ajuda a fazer tudo, a um total despeito pelas coisas, até pela vontade da criança e de a ouvir. a capacidade de escuta está a precisar de ser trabalhada, as pessoas estão um bocadinho desfocadas, as famílias vivem muito no ruído e na luz e no espetacular todo o tempo, mas nós precisamos de aborrecimento porque é daí que nasce a criatividade! às vezes, um miúdo não ter nada para fazer, ou ter só três pedras ou pedaços de madeira para brincar, é a melhor coisa que lhe pode acontecer, porque é estimulante para a criatividade.

estar no agora, contra desequilíbrios

a essência dos dias: mas o quotidiano e a pressão da sociedade de hoje às vezes esmaga-nos. que dicas daria para não sucumbirmos? por exemplo, há pouco tempo escreveu sobre festas de aniversário para crianças (“um dia não são dias e festa, é festa!”), mas se elas recebem convites todas as semanas, como dizer não?

alexandra: eu não tenho dicas, o que digo não pode funcionar como receita, porque cada família tem a sua dinâmica e a sua comunicação. mas vamos a exemplos práticos: quando as minhas miúdas eram pequenas, todos os fins de semana eram convidadas para festas, mas sempre comunicámos muito com elas e sempre lhes foi explicado o porquê da opção de não irem a todas as festas – termos festas todos os fins de semana e não termos tempo para mais nada não faz sentido! da mesma forma que existe muito aquela coisa de pôr o filho no ténis e não sei mais em que atividades e só chega a casa à noite… isso não faz sentido! qualquer coisa que provoque um desequilíbrio maior ou uma destrutura familiar não é boa e, se não é boa, não se faz. no final de contas, somos os detentores do nosso caminho e quem determina se este sábado vai ou não ser horrível, os pais não têm de ser reféns dos miúdos nem o contrário! a família tem de procurar o equilíbrio. eles não são mais felizes por irem às festas todas ou andarem em mil atividades, mas nós todos seremos mais felizes se nos respeitarmos uns aos outros, e o respeito passa também por a criança perceber que não vai a duas festas mas pode escolher uma, e que sorte poder escolher! trata-se de valorizar isso porque tudo depende da maneira como olhamos para o copo e se o vemos meio cheio ou meio vazio. isso determinará vivermos angustiados ou felizes.

a essência dos dias: em resumo, devemos procurar esse equilíbrio…

 alexandra: sim… se eu marco uma coisa para as 15h e quero estar em casa de amigos às 19h, não posso esperar que o meu filho de quatro anos à noite não esteja aos berros na casa dos amigos. por isso, a única dica que acho mesmo possível dar é: pensar, antecipar e perceber que não somos obrigados a fazer este tipo de coisas,  ver o que é realmente importante. e, para mim, é importante sabermos viver a maternidade nas diferentes fases, porque tudo vai passar. eu sei que daqui a cinco ou seis anos vou ter muito menos tempo de partilha com as minhas filhas, e aí vou ter maior disponibilidade para trabalhar fora de casa e ganhar mais dinheiro, mas três adolescentes é que não vai voltar a acontecer, então se eu não estiver lá agora… por isso, se conseguirmos adaptarmo-nos ao que a vida exige de nós no agora, é bom. mas lá está, isso exige uma disponibilidade que as pessoas têm ou não têm, não funciona como receita. pessoalmente sinto-me muito bem em estar no sítio certo à hora certa, estar disponível para elas é-me altamente gratificante, dá-me um prazer imenso! e as pessoas têm de ir à procura de onde sentem essa gratificação. mas, embora todos diferentes, pensar é fundamental. eu preciso muito de pensar nas coisas e de as fazer de forma muito consciente. é a minha máxima: ter consciência daquilo que faço e dar-lhes também essa consciência.


siga a Alexandra em: www.nheko.pt
a não perder: Nheko Shop
fotos gentilmente cedidas pelo "Nheko"

 

 

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