ana e o movimento lixo zero

recusar (o que não necessitamos), reduzir (o que necessitamos), reutilizar (o que consumimos), reciclar (o que não conseguimos recusar, reduzir e reutilizar) e fazer compostagem (rot, em inglês). este é o conjunto de práticas (os 5 R’s), exatamente por esta ordem, em que se baseia o estilo de vida zero waste que, desde 2016, Ana Milhazes assume e promove por cá com a criação do movimento Lixo Zero Portugal. a também autora do blogue Ana, Go Slowly, que criou em 2012, e instrutora de yoga e meditação desde 2015, é exemplo de como simplificar e abrandar anda de mãos dadas com o minimalismo e a sustentabilidade.

todos nós crescemos aprendendo a reciclar e, até há bem pouco tempo, isso era uma máxima para a proteção do ambiente. mas, na verdade, reciclar já não basta. porquê?
de facto, chegámos a um momento em que, para lá das notícias que têm saído, vários estudos científicos indicam que é preciso agir no imediato por causa dos efeitos das alterações climáticas. então, já fizemos tão mal ao planeta e há tanto por fazer por ele, que reciclar não chega, até porque isso exige imensos recursos (o camião que vem buscar o lixo, o tratamento em fábrica…), o que vai causar ainda mais prejuízos. além disso, se nos incentivam a reciclar, é porque compramos plástico, logo a produção é uma constante, gasta-se mais petróleo, mais recursos… é um ciclo que não acaba! irmos à fonte, começarmos a reduzir o uso do plástico e apostarmos antes na prevenção da produção de lixo tem um impacto muito mais positivo sobre o ambiente.

não é por acaso que reciclar é a penúltima das cinco práticas em que assenta o movimento desperdício zero…
sim. claro que reciclar continuará a fazer sentido, mas há uma série de outras coisas que conseguimos fazer antes e que vai ter um impacto muito maior no planeta. a primeira, desde logo, é recusar: trata-se de só aceitarmos ter aquilo que faz efetivamente falta na nossa vida, o que, reconheço, hoje é cada vez mais difícil. desde já porque, com a correria do dia a dia, não temos tempo sequer de pensar quais são as nossas reais necessidades e, depois, estão sempre a aparecer coisas novas. então, achamos que quase tudo é uma necessidade quando, na verdade, não o é (começa-se por um telefone, que exige um programa específico, que requer um outro aparelho para funcionar… uma coisa leva à outra. quando nos damos conta, estamos a consumir muito mais e a poluir).

por isso é que um estilo de vida minimalista, que a Ana assumiu em 2011, liga tão bem com este movimento…
exatamente. apesar de só seguir o estilo de vida desperdício zero desde 2016, no fundo, este primeiro princípio – recusar – já o estava a praticar sem saber desde 2011, porque coincide com uma altura em que achava que precisava de me organizar melhor, pois tinha uma vida muito corrida. os dias eram todos iguais, sempre casa-trabalho-trabalho-casa, e achava que tinha muita coisa para reduzir. através de pesquisas na internet acabei por descobrir o minimalismo e percebi que efetivamente – não que fosse uma acumuladora – tinha muitas coisas e ia sempre comprando mais, sobretudo roupas.

desperdício zero e minimalismo

mas o que é exatamente o minimalismo? não é só uma questão estética (uma sala branca, despida…).
pode ser, pode não ser. eu até posso gostar muito de arte e ter a casa cheia de obras de arte. trata-se é de pensarmos o que é, para nós, essencial e, depois, termos a coragem de dizer não a tudo o resto. na altura, fiz isso com a roupa e sapatos: comecei por perceber que comprava para preencher um vazio – lá está, sentia que a vida era tão corrida que a forma de a aproveitar era dando um presente a mim mesma, e então ia ao shopping; depois passei a procurar outras coisas, a perceber do que gostava, a realizar mais atividades ao ar livre… ao fazer aquilo de que mais gostava e a ter menos coisas para arrumar em casa, passou a haver mais tempo e também um maior sentido de realização e felicidade. e, a partir do momento em que existe isso, deixa de haver a necessidade de comprar tanto.

passa então a haver uma recusa ao consumo?
sim, à medida que compramos menos, passamos a comprar menos e menos. quando damos conta, há uma grande recusa ao consumo. passa até a ser um desafio porque percebemos que conseguimos viver sem aquilo, que vale mais uma experiência do que um casaco. por isso, quando descobri o minimalismo, “recusar” já estava conquistado e assim também foi muito mais fácil passar logo aos outros R’s do movimento zero waste – no fundo, foi só começar a redução dos plásticos.

e essa redução foi de tal ordem que, agora, o lixo que a Ana faz cabe num pequeno frasco de vidro. o que é que vai para esse frasco?
a ideia de o pôr num frasco foi para eu própria ter consciência do lixo que produzia e também para mostrar às pessoas que isso era possível, porque não acreditam. no frasco tenho lentes de contacto, cerdas de escovas de dentes, autocolantes e também cheguei a ter algumas etiquetas e pulseiras de festivais, que entretanto dei a uma amiga que as reaproveitou para um projeto de costura.

estilo de vida económico e saudável

mas – dando agora voz às resistências que o nosso ego lança contra a mudança – a Ana ainda não tem filhos. é possível manter este estilo de vida com filhos?
é possível. dou sempre os exemplos das minhas amigas com filhos: uma teve um bebé há cerca de um ano e, nessa altura, pediu que não lhe dessem brinquedos de plástico (só de crochê ou madeira); em situações de festas, por exemplo num batizado, avisa os familiares para darem antes uma experiência, uma coisa de que a mãe necessite ou não darem nada, bastando a sua presença. isto não significa recusarmos uma prenda ou outra – não é para ficarmos frustrados! mas é possível e é preciso lembrar: as crianças acabam por consumir o mesmo que nós e vão seguir esse modelo.

e não nos sai caro este estilo de vida, uma vez que precisamos de optar por compras a granel ou produtos alternativos, como escovas de dentes feitas em bambu?
há coisas que são realmente mais caras. no caso das escovas de dentes, essas são bem mais caras do que as de plástico, mas temos de considerar quais são as fábricas que produzem este tipo de escovas e quais as que produzem as de plásticos. além disso, é um produto recente, funciona a lei da oferta e da procura, mas, se tivermos toda a gente a procurar as de bambu, essas vão começar a ficar mais baratas. em relação ao granel: o que acontece é que a maior parte das lojas que vendem a granel são bio, sendo ingrato comparar um ingrediente bio a granel com um normal embalado! mas eu encontro frequentemente produtos bio a granel ao mesmo preço dos embalados, portanto é uma questão de procurarmos.

portanto, é também escolhermos com consciência e equilíbrio, até porque também se geram poupanças se, por exemplo, optarmos pelo copo menstrual no lugar dos pensos higiénicos.
sim, se de tudo o que compro a granel houver uma coisa que tenha antes de comprar embalado, ok, compro embalado, não precisa de ser 8 ou 80. mas, de um modo geral e a longo prazo, é um estilo de vida mais económico e muito mais saudável: desde logo porque deixamos de consumir imensa coisa ao percebermos o que é realmente necessário. depois, se pensarmos bem, tudo o que se compra embalado é, por norma, processado e, se deixarmos de comer coisas processadas, vamos passar a ter muitos menos problemas de saúde e a gastar menos dinheiro em consultas e medicamentos.

viver mais devagar e conectados

entretanto, em 2017, passou a dedicar-se inteiramente ao movimento Lixo Zero Portugal, realizando workshops e palestras, e tornou-se instrutora de yoga e meditação…
o yoga e a meditação surgiram na minha vida mais tarde que o minimalismo, em 2014. precisei desses anos todos antes para abrandar e conseguir fazer yoga, porque antes já tinha tentado e não tinha gostado – era muito acelerada! ao abrandar, comecei a virar-me mais para a natureza e para mim própria e, quando assim acontece e temos sede de nos conhecermos interiormente, surgem o yoga e a meditação. pratiquei desde então, tirei curso e, para mim, fez sentido começar a dar aulas – passar às pessoas a tranquilidade que o yoga me dava a mim.

a propósito, no blogue Ana, Go Slowly refere: “só faz sentido encararmos a vida como um todo”. do slowliving e minimalismo ao desperdício zero e yoga, formou-se aqui um todo?
eu costumo dizer que temos duas casas, o nosso corpo e a terra. o yoga é a ferramenta que temos para cuidar do nosso corpo mas, ao mesmo tempo que cuidamos do nosso corpo, vamos ganhar mais amor pela terra e vice-versa. por isso sim, acho que as coisas se conjugam muito bem. é impossível uma pessoa que gosta muito de si e cuida de si atirar lixo para o chão ou cuidar mal do ambiente, assim como uma pessoa que cuida da terra, não vai ser capaz de ser má para si própria. então as coisas estão mesmo muito ligadas, é uma simbiose perfeita.

siga a Ana e aproveite o Guia Desperdício Zero em anagoslowly.com
siga também o movimento Lixo Zero Portugal em www.facebook.com/zerowasteportugal
fotos gentilmente cedidas por Ana Milhazes

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