espiritualidade: afinal do que se trata? (I)

não gosto muito do termo, por encerrar tantas (e confusas) interpretações. poder-se-ia também recorrer à terminologia “desenvolvimento pessoal” ou “autoconhecimento”. mas, enfim, também não se esgota aqui o assunto. na verdade, pouco me importa o signo linguístico que se escolha, apenas dependo dele como ponto de partida para esta tentativa de explicar o que está na base e nas próprias roupagens deste blogue (a flor de lótus não é de todo uma escolha inocente). então o que significa a espiritualidade para mim? o que é afinal? sobretudo, o que fica depois do adeus a ela? segue-se o primeiro de três textos de um só ensaio. um caminho dividido por três fases distintas.

na juventude

já na minha adolescência e mais terna juventude, sobretudo a partir dos 16 anos, e com a entrada da filosofia na minha vida, eu me deixava encantar pelos mistérios da natureza e do cosmos. amava o sol, a lua, a luz de uma vela, o fumo de um incenso, os sons mais tribais… e tudo encarava como magia. a toda a hora sentia e lia os sinais do universo e perdia-me em leituras como “O Alquimista” e “O Diário de um Mago” de Paulo Coelho, “Conversas com Deus” de Neale Donald Walsch e “Fernão Capelo Gaivota” de Richard Bach.

pouco ou nada entendia de “espiritualidade”, muito menos de “desenvolvimento pessoal” – a era digital ainda não fervilhava como acontece hoje e não havia essa obsessão por rótulos, mas tudo o que lhes estava relacionado fervilhava-me nas veias… chamávamos-lhe (entre os meus amigos mais chegados e com empatia pelas mesmas coisas) a essência (e por isso este blogue não podia carregar no nome outra palavra) e perdíamo-nos a debate-la ou escreve-la, trocando cartas e manuscritos entre nós. vimos e marcaram-nos também filmes como “A Sociedade dos Poetas Mortos”, “A Beleza Americana” e “O fabuloso destino de Amélie”.

inquietava-me aquela pergunta feita por um professor de moral (qual é o vosso propósito de vida?) que nada se satisfez com as respostas gerais obtidas (ir para a universidade, casar, ter filhos); e também aquela meditação conduzida por uma professora de filosofia, que nos pôs a todos, toda a turma, deitados no chão, de olhos fechados, a ouvir “A Alegoria da Caverna” de Platão, e a sentir o que era sair de um estado de escuridão.

ainda que rapariga de fé, batizada e crismada no catolicismo, não me conformava com a imposição de rituais, com os tabus. achava que deus, sendo maior que todas as coisas, só podia ser a soma de todos nós, e para amar tão incondicionalmente não lhe podia caber culpas, pecados, infernos. e assim me afastei da religião.

e tudo se adensou quando fiz o Caminho de Santiago. quando comuniquei esse meu desejo aos meus pais, eles acharam que era loucura – na altura também mal se falava dessa peregrinação – e então levaram-me lá, de carro, achando que isso me satisfaria a curiosidade. mas ver a chegada de peregrinos à catedral, com as suas mochilas pesadas, fatigados, empoeirados, mas tão radiantes e luminosos, só me ateou ainda mais a chama. fi-lo em 2003.

(continua brevemente)

10 Comments

  1. Estou imensamente interessada em ler a tua jornada porque eu própria ainda tenho muitas dúvidas no meu caminho – como costumo dizer, isto traz-me mais perguntas que respostas….. Obrigada por partilhares de ti. Vou estar por aqui, a dissertar contigo, virtualmente 😉 e a ver se tiro alguma conclusão desta coisada toda!

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  2. Tendo eu lido os mesmos livros e vistos os mesmos filmes, percebo as tuas palavras e sinto-as como se escritas por alguém que também me acompanhou nesta meu caminho. Ainda não fiz o caminho de Santiago, algo desejo desde a faculdade, mas sinto que esse dia chegará. Desejando continuar a ler-te ❤️

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  3. obrigada por estares aqui. tanto se escreve hoje em dia mas creio que não há como estes, tão simples, genuínos! quanto ao Caminho de Santiago… o que te impede 😉? (just a question.) quando quiseres fazer, posso ajudar com informação, dicas… 😘

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  4. Gostei de dar esta primeira caminhada contigo através tuas palavras. Como a parte 2, já aqui está já lá vou! Mas desde já, obrigada de nos partilhares tua experiência.

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