espiritualidade: afinal do que se trata? (III)

último post da trilogia iniciada com a publicação do post “espiritualidade: afinal do que se trata? (I), em 20/01/2019.

adulta e simples

já teve muito a ver com esoterismo e já teve muito a ver com procura fora de mim, embora nada disto esteja errado, até porque reconheço que as experiências e ferramentas adquiridas me ajudaram a mergulhar dentro de mim e a reestruturar-me internamente para um entendimento mais profundo da minha essência e para estar mais preparada para os desafios que se seguem. mas hoje, depois da metamorfose, depois do ciclo que se encerrou com o adeus a ela, o que entendo por – e como vivo a – espiritualidade?

é o encontro com a minha essência, que entendo como sendo a minha alma, a minha voz mais profunda, o meu eu superior, a matéria divina de que somos feitos. e, por isso, é sentir-me em casa e sentir-me tão igual a mim mesma. mas é igualmente entrega à vida, rendendo-me, fluindo por entre os seus movimentos, e nisto descubro que, para lá de quem sou, importa também questionar-me a todo o momento quem estou, para alinhar essência e vivência, e desta forma viver mais presente, consciente, conectada, intencional… com propósito. e isto é sentir-me igualmente tão diferente!

é estar menos dependente do que me chega de fora (livros, práticas, mestres, filosofias…) e estar mais sintonizada com o que mora dentro, ouvindo e confiando no que o coração me diz, seguindo a minha intuição, e isso é também observação, contemplação, uso de todos os meus sentidos… e sentir o rio como “Siddhartha”* sentiu.

é ser eu mesma, inteira, imperfeita, humana. porque acredito que somos seres espirituais a viverem uma experiência humana e a lado nenhum nos leva o fingimento ou a ilusão. como disse Elizabeth Gilbert, em “Comer, Orar, Amar”, a Deus não interessará ver como se comporta uma pessoa espiritual. e, por isso mesmo, não me interessa criar uma bolha onde posso ser inteiramente zen e desleixar-me na gestão do que encontro fora dessa bolha; não me interessa só elevar o espírito mas também os prazeres mais mundanos. é ser mais “Harry” e menos “Lobo das Estepes”*.

é não ir em tretas: não há pessoas espiritualizadas – somos todos farinha do mesmo saco, podemos é estar ou não conscientes disso e querer estuda-lo, senti-lo, ou não; não há um caminho, uma verdade, uma salvação – é tão válido o meu Deus como o teu ou a paz e o silêncio que encontras numa maratona; não há exclusão – uso um terço como uso um japamala, recorro a remédios naturais como à medicina, e em tudo encontro um fio único, quase invisível, mas comum; não há separação – trigo ou joio, altamente instruídos nestas matérias ou analfabetos, com níveis energéticos mais ou menos elevados logo benéficos ou prejudiciais… completamo-nos, somos um só, e todos vão procurar regressar a casa.

não é egocentrismo, não é dogmatismo, não é um protótipo, não é preconceito.

é, bem resumido e no fim de tudo, amor. amor-próprio. amor por este mistério que é ser filha de Deus, do universo ou simples energia. amor ao outro. amor à vida. e por ser tão isso não cabe no meu peito e não o posso deixar que aqui estanque. é esta expansão. este transbordar. esta minha própria escrita-partilha.


*
“Siddhartha” é a história de uma procura, de uma peregrinação até à reveladora iluminação final, e a obra mais conhecida de Hermann Hesse. do mesmo autor, e consagrado Prémio Nobel da Literatura, “O Lobo das Estepes” fala-nos da história de alienação e redenção de Harry Haller, ele que é meio-humano, meio-lobo. dois romances fascinantes de um dos nomes maiores das letras germânicas do século XX.

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