a ver: o dador de memórias

vida e propósito, não são uma só coisa? memórias e emoções, um mundo para desapegar? controlo e liberdade, andam de mãos dadas? se gostas deste tipo de questionamento, tens de ver O Dador de Memórias. o filme já não é novo, mas eu (pouco cinéfila) só o vi no ano passado e ainda cá anda — lá está — na memória a guiar-me de cada vez que o medo me pergunta “para quê?”

no outro dia ouvia um amigo a comentar como estamos a ficar velhos, acontece-nos tudo, é só doenças. e pensei por que caímos neste erro… o de ver a passagem do tempo e os acontecimentos mais desafiantes como algo negativo, no lugar de compreendermos mais profundamente que são as regras da vida natural e que nos resta respeitá-la e fluir com ela, experienciando-a e tirando o melhor proveito desta escolha que todos os dias podemos fazer: viver.

na era do “procura o teu propósito”, talvez haja somente isto para descobrir: o de que não há outro propósito senão o de viver, conscientemente; viver plenamente o que cada fase da nossa vida ou faixa etária nos apresenta; viver a impermanência e o que pode ser vivido com as ferramentas que a vida se encarrega de nos oferecer, compreendendo que “tudo está ligado, tudo é equilíbrio” e que “com o bom vem sempre o mau”­— tal como, em O Dador de Memórias, é dito a Jonas pelo guardião das ditas.

o filme (The Giver, no original norte-americano), realizado por Phillip Noyce em 2014, é uma adaptação ao cinema do livro com o mesmo nome de Lois Lowry (1993). fala-nos de um mundo aparentemente ideal, sem guerras ou conflitos, sem doenças ou tristezas. as regras “precisão na linguagem, não mentir, recolher obrigatório, tomar a medicação” são o pilar para o bom funcionamento desta nova sociedade, depois de aos cidadãos terem sido retiradas as memórias e as emoções. não há raças, credos, medo, fome, dor, vencedores, popularidade, raiva, ressentimentos ou sequer cor, música, plantas, animais. tudo é ordem. está criada a igualdade total e absoluta.

o que seria do bom sem o mau?

se a medicação, tomada diariamente sem interrogações por todos os habitantes, elimina as emoções mais profundas e primitivas, as fronteiras geográficas desta comunidade são também as fronteiras das memórias — ultrapassadas umas, outras são de pronto libertadas. mas ninguém ousa fazê-lo — ou sequer o sabe possível —, à exceção do velho guardião das memórias (Jeff Bridges), que vive isolado, encarregue de armazenar todas as recordações do mundo, poupando os habitantes a essas mesmas lembranças.

é chegada, porém, a hora de passar essa responsabilidade: Jonas (Brenton Thwaites), ao completar a maioridade, será escolhido para Recetor de Memórias. ao longo de vários e intensos encontros do jovem com o velho guardião, todo o passado desconhecido da sua comunidade é-lhe revelado e, a partir daí, é como se… nós, meros espetadores, entrássemos nessa viagem ao lado de Jonas. “escuta o apelo que te vem de dentro”, diz-lhe o guardião, pondo-lhe as mãos sob os pulsos e deixando-o como que em estado de hipnose. vemos de seguida um trenó deslizando sobre a neve, um barco sobre um mar com o sol a pôr-se ao fundo, a vida selvagem, a alegria de povos nos seus ritos, pessoas a dançar, a paixão mais espiritual e o prazer mais carnal. tudo tem agora cor, e é mais alegre, profundamente vivo. “como pode alguém querer livrar-se disto?”, pergunta o jovem.

e é aí que também lhe (nos) é dado a ver a extinção dos animais, os conflitos armados, as feridas abertas, a morte, a perda, tudo numa velocidade de imagens e numa intensidade tal que o levam a sentir dor, medo, vontade de fugir. mas o guardião dá-lhe a força: memórias de manifestações, rebeliões, luta pelos direitos humanos, aventura, evolução. e, junto com Jonas, lembramos: “o que seria do bom sem o mau? o que seria do presente sem um passado? as memórias não têm só que ver com o passado, elas determinam o nosso futuro. podes mudar as coisas. podes melhorá-las. as memórias são a nossa força.”

o que irá o jovem escolher? preservar a comunidade ou libertá-la de um mundo de sombras e de ecos, ultrapassando as suas fronteiras geográficas? a anciã chefe (Meryl Streep) não lhe facilitará a jornada, mas o guardião de memórias dá-lhe a conhecer o amor — e “com o amor vem a fé, a esperança”.

2 Comments

  1. O film levanta perguntas. A memória, as memórias ainda as vejo elas como as Guardiãs dos erros passados, quero acreditar nisso! Pois o ser humano foi evoluindo, de modo geral parce ter evoluído… mas quando nos parece que a história se repete, preferimos que não se repita as grandes catástrofes, em tão aqui relembrar e explicar o que nos levou à catástrofe, deve de se fazer ! Aqui um aspecto que a memória tem de bom! E sim o bom e o mau parecem ter sentido. Mas a nível mais pessoal, ter acesso a nossa memória pode nos ser útil para percebermos como nos livras também dos erros que se repetem, quando conseguimos fazer a introspecção necessária (com ou sem ajuda, tudo dependendo do mal que nos fazem as repetições dos nossos erros). E o passado, as memórias que são nosso futuro como tu dizes, vê-se esse aspecto no acto de resiliência, a cicatriz que conseguimos olhar e levar connosco sem deixar o passado nos destruir. É pelo menos esse desejo que tenho para quem passou por horrores : que consiga entender com bondade e sem complacência (como já ouvi dizer), o que se passou no seu passado e que consiga ir para a frente, aceitando a alegria e resolvendo as mágoas da vida! Sem falar, das lições dos fracassos, que temos de aprender a ver com olhos positivos, porque se nós levantamos deles saímos mais fortes ou sabemos mais! Em fim, assunto vasto e interessante !! Acho que estamos de acordo, mas quiz deixar aqui minha contribuição !! E parabéns pela tua regularidade neste teu projeto !! Bjinhos

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